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  • Foto do escritorFAUNAS teatro portátil

Contar uma história com as mãos


“Sem corpo, não há mente”. – DAMÁSIO, António: A estranha ordem das coisas.



5.fevereiro.2023.

Amanhã inicio uma série de apresentações do livro “Padaria”. Conto esta história fazendo gestos com as mãos, gestos que as crianças repetem comigo. Para quê usar este recurso? É mímica? Língua gestual? Nada disso. Trata-se de trabalhar o sensorial e o invisível.

Antes de criarmos o artifício a que a natureza humana nos conduz, nós – humanos – somos capazes de visualizar a forma ainda inexistente, partindo de uma nova reconfiguração das nossas memórias. É isso que procuro trabalhar. Convidando as crianças a evocar as sensações das coisas conhecidas, faço um conjunto de gestos, que elas repetem. Mas, nesses gestos, não procuro nenhuma coreografia visual. Procuro, sim, que, evocando o seu conhecimento das coisas, as crianças imaginem aquilo que ali não está.

Faz-me todo o sentido fazer isto, no mundo das realidades virtuais e inteligências artificiais.

Como é que construímos conhecimento? Experimentando a realidade concreta através dos sentidos, nós produzimos respostas emocionais. São estas respostas emocionais que nos permitiram destrinçar o que nos faz bem do que nos faz mal, o que nos convém do que nos mata. São elas que, ao longo de milhões de anos, nos fizeram persistir e prevalecer enquanto espécie. Algumas são simples e vêm inscritas nos genes (os reflexos); outras são como sedimentos que pavimentam a nossa mente, resultantes de uma construção feita no tempo através de várias respostas emocionais às diferentes experiências que vivemos.

As experiências deixam-nos “marcas”, algumas fixadas como memórias, outras fixadas como sentimentos (geradores de novas respostas emocionais) e ainda outras fixadas como raciocínios (que muitas vezes encaramos como “verdades” ou “as nossas verdades”). É através desse processo – experiência sensorial que conduz a uma resposta emocional – repetido vezes sem conta, que construímos o nosso pensamento individual. Quanto mais diverso for o nosso leque de experiências, mais denso, complexo e consistente será esse pensamento e este, quanto mais singular, mais amplo será na sua capacidade criativa: o contributo que podemos dar aos outros.

Podemos dizer que, no nosso processo de conhecimento do mundo, as memórias, os sentimentos e os raciocínios que elaboramos na nossa mente são pontos de chegada de um sistema sensorial de apreensão da realidade. Porém, no mundo virtual, esse sistema está invertido, porque as memórias, os sentimentos e os raciocínios surgem, não da experiência concreta, mas das imagens prontas a consumir. Imagens produzidas no seio de determinadas culturas, que veiculam determinados sentimentos e raciocínios. Até aí, nada de novo. Desde que o primeiro hominídeo deixou uma marca de sangue sobre a rocha, todos os artefactos humanos comunicam, persuadem, invadem as nossas mentes de imagens. E é evidente que há uma enorme quantidade de informação que temos de assimilar por leitura, sem a experiência direta (não é preciso ir à guerra para saber o que é guerra). Não é disso que estou a falar. Estou a falar da exposição desenfreada de conteúdos virtuais (redes, vídeos, jogos, etc.) a que as crianças estão sujeitas, ao ponto de terem dificuldade em encontrar outras atividades apetecíveis para fazer com os amigos. Mas estou a falar, também, das obras de arte criadas a partir de inteligência artificial. Não é que um e outro fenómeno estejam errados ou devam ser banidos, longe disso. Vejo-os antes como sintomas de uma distração: Distraídos como andamos, deixamos de nos compreender como indivíduos ativos nos nossos processos de conhecimento e de criação, na complexidade que somos: feitos de corpo e mente.

O problema começa quando, colocado perante ecrãs, o ser humano deixa de considerar importante colocar-se em experiência direta com a realidade. Como se as memórias, sentimentos e raciocínios consumidos através da plataforma mediadora fossem iguais às memórias, aos sentimentos e aos raciocínios a que chegaríamos, caso estivéssemos em experiência direta com a realidade. Até podem ser parecidos, mas a questão é que eliminar o processo que implica a absorção sensorial e a resposta emocional é eliminar um processo de conhecimento que não acontece apenas ao nível consciente nem sequer mental, tratando-se de um processo dinâmico, completo e complexo, que conduz a uma permanente evolução e transformação do indivíduo. O corpo também memoriza, o corpo também aprende e, aprendendo, transforma-se e transforma. Porque o corpo reage. É esse corpo, ativo e pensante, que se torna capaz de criar.

É isto que procuro, quando faço com os dedos o movimento da semente que incha e brota da terra para ser cereal, ou das bactérias que dormem quando está frio e se agitam no calor; quando simulo uma queimadura na porta do forno ou evoco o perfume dos pães acabados de fazer. É isso que procuro, quando faço com as crianças um “sorriso de pão”: esse sorriso que fazemos depois de comermos um pão mesmo bom, mesmo bem feito... Os gestos evocam sensações conhecidas, sendo estas o primeiro passo de aprendizagens completas e densas, aprendizagens que nos deixam marcas. Mas, fazendo esses gestos, a criança faz também outra coisa: desenha à sua frente o novo, aquela coisa que é invisível, que ainda não existia. A criança, nesse gesto, empresta forma à sua imaginação. E, assim, aprende-se criadora. Oxalá.


Isabel Fernandes Pinto

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