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Parto


“A liberdade, como capacidade interior do Homem, equivale à capacidade de começar” – escreveu Hannah Arendt, no capítulo final do livro “As origens do totalitarismo”.


Não há beleza sem dor, mas dor sendo vencida.

Um parto dói e pode ser o mais prazeroso dos acontecimentos, se não tivermos medo. Corrijo: se não nos deixarmos vencer pelo medo. Somos animais, o medo está sempre em nós. E, como animais que somos, queremos permanecer e prevalecer – oh, verbos másculos! Pensamos sobre tudo isso: somos sapiens. Dou à luz: sou mulher.

As palavras fazem sentido quando nos revelam o avesso das coisas e das ações, não o contrário. Tornam-se absurdas ou vazias quando, com elas, visualizamos o que queremos ver na superfície das coisas e das ações. Aliás, nós nunca as vemos, em absoluto, na sua realidade. Porque não existe uma realidade mas várias realidades. E quando existe apenas uma é porque essa é inventada e se tornou conveniente para um conjunto de pessoas. Nada contra, mas isso não é o real nem a verdade do mundo. Essas realidades únicas e consensuais são convenções.

“Convencionou-se assim”. Pertence sempre ao passado. Uma convenção não está sendo criada, já o foi. É um chão. Até começar a tremer. Então, que se reconvencione o chão: que seja desmantelado, reformado, desfeito, recriado. Que agregue de novo a atenção dos interessados e criadores: os humanos. Que a convenção não se sobreponha nunca às múltiplas realidades que a vida nos oferece: a cada um, a todos em conjunto.

*

Lágrimas do mar escorrem pela pele. Covos empilhados no areal. O suor dos pescadores. O ardor de sal nos olhos, suave e quente. Amor espalhado, distribuído com mãos tão gratas que se tornam generosas. Nada dou: devolvo. Amo o amor que há. Escrevi isto aos vinte anos, quem era? Continuo a amar o amor que há. “Nós vimos canhões” – diz o menino que passeia com duas mulheres, na praia. “E os piratas?” Amo o amor que há. Espalhado por aí como a areia ou a terra. Terra onde tudo medra. Amo o amor que há. O real caleidoscópico dos olhares de toda a gente. Amo, desejo, admiro. Inunda-me a luz de um sol profano que adoro: uma palpitação. Todas as pessoas são belas, se as olharmos bem. E digo “belas” porque a respiração – esse ato de troca individual entre o indivíduo e o mundo – me é insondável.

A espuma que sobra do mar, explosão branca contra o paredão. O presente. Um papel enfeitado que embrulha a eternidade. Um acontecimento entre pessoas: uma dá, a outra recebe. A que dá faz-se recetora do poder de dar, a que recebe faz-se dadora do poder de dar. O “poder de dar”, quando, na verdade, a dádiva é a negação do poder. Talvez a dádiva seja uma manifestação suprema de liberdade: a abertura de possibilidades, um início.

Dou a quem amo porque os amo, ou seja, sem justificação alguma. Quem ama não adquire poder, pelo contrário, larga-o. Só amamos se nos colocarmos de olhos nos olhos com aquele que é amado.

*

A criação. O brilho. Criação-parto. Brilho-vida. Criar é talvez um verbo feminino. Viver – imperativo homeostático de perseverar e prevalecer – é talvez um verbo masculino. Mantemo-nos erguidos: somos masculinos.

Masculino e feminino existem dentro de cada um de nós. O resto – o nosso género –, é corpo e mecanismo. Ereção, desejo e orgasmo são comuns a ambos os sexos. Há diferenças íntimas. Quando pari, o meu homem era quem guardava a casa, o meu corpo, a minha fome, a minha segurança e a minha cria. Manter é um verbo masculino. Mas quando é ele que está a parir – a criar – sou eu quem ronda a casa dele como um cão: guardo-lhe o corpo, o bem-estar, o alimento, a alegria, a confiança. Eu sou a mulher e o homem dele. Ele é o meu homem e a minha mulher.

O ser de cada pessoa não se reduz a um género. “Somos uns para os outros”. E é sendo, agindo uns para os outros, que, por vezes, somos mais masculinos, por vezes, somos mais femininos. O corpo, esse, é outra coisa.

Isabel Fernandes Pinto, 14-8-2021 / 16-8-2021

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