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Uma magia que sai do cérebro


Desde que realizei a prova final da licenciatura de arquitetura, há quase vinte anos, moram-me na memória algumas leituras que fiz do arquiteto Louis Kahn. Entre elas, está um breve trecho em que ele descreve o dia que passou em Carcassonne a desenhar*.

O arquiteto chegou de manhã e logo começou a desenhar no seu caderno, atentando nos detalhes e nas proporções como se fossem “sonhos realizados” (nas suas palavras). Passou todo o dia a desenhar nos pátios, nas ruas, nas muralhas e nos bastiões da fortaleza e, progressivamente, a objetividade do seu traço foi dando lugar à invenção. Começou a alterar formas, proporções e ambientes. No final do dia, a sua Carcassonne dos desenhos era uma outra, que não existia na realidade mas, de alguma forma, numa intimidade que ele estabelecera através do seu processo de observação e registo, derivava da existente.

Sempre pensei nesta pequena história como uma raríssima explicação do processo criativo. Recordo-me de como era ficar longos períodos a desenhar em pedaços da cidade do Porto, na disciplina de Desenho, da FAUP. Quando terminava e voltava àquele lugar, a sensação de familiaridade era tão grande que parecia que visitava uma antiga morada. O desenho proporciona-nos isso: a criação de uma intimidade com o real. Com o tempo, fui acrescentando texto aos meus desenhos e depois, inexoravelmente, despedi-me do desenho e tomei a escrita como meu processo de registo do real. Mas adiante. Não é de mim que quero falar.

Quero falar dos sentidos e da importância de dar atenção às coisas. Kahn inventou depois de muito observar. Aquilo que observamos, não nos fica nos olhos. Aquilo que percecionamos, não nos fica nas sensações. Há uma vivência interior que é colocada em funcionamento nas respostas emocionais que são desencadeadas; há todo um novo mapa de imagens que se vai configurando na nossa mente e que, eventualmente, dará origem à concretização de novas imagens: a nossa obra.

Assim, podemos postular que todo o ser humano se torna criativo se souber dar atenção ao que o envolve. Há muitos anos, ainda estudante do secundário, ouvi um professor da área científica dizer que não se pode observar bem sem utilizar os sentidos todos. É também a isso que nos convoca Alberto Carneiro e a sua “arte ecológica”, que nada tem a ver com reciclagens e outras mimeses, mas que se concentra numa relação íntima entre o sujeito e o objeto, pois que “a arte é o artista e também o espectador”. O processo criativo estabelece mecanismos de habitar o real. Precisamos de trazer a realidade para dentro de nós, se queremos encontrar o “novo”, aquele que ainda não existia no real observável.

Por outras palavras: o exercício da criatividade pressupõe os exercícios da observação e da perceção sensorial.

Foi com base nestes pressupostos que propus a uma turma de futuros professores e educadores que fossem percecionar uma determinada realidade envolvente – de olhos vendados, para “abrir” os outros sentidos –, lhes pedi que trouxessem um objeto dessa realidade para dentro da sala de aula e, depois, lhes indiquei que escrevessem (tomassem consciência de): 1º as sensações que experimentaram; 2º as emoções que sentiram; 3º a descrição objetiva e detalhada do objeto que trouxeram; 4º a invenção de um nome para esse objeto; 5º a descrição dessa personagem.

Na aula seguinte, trabalhamos com uma cadeira da sala de aula, com a qual todos estavam familiarizados. Primeiro, fizemos a dança das cadeiras com uma variante: De cada vez que parávamos, o último a sentar-se teria que atribuir três qualificativos à cadeira. É claro que, ao segundo, já estavam todos a dizer “mas, professora, é impossível encontrar mais adjetivos para esta cadeira!”. A verdade é que encontraram cerca de 60 qualificativos, sendo que todos foram consistentes e verosímeis. Afinal, a cadeira era mais do que aquilo que eles pensavam que viam desde o início das aulas. A pergunta “Como é aquela cadeira?” obrigou-os a observar. Descrevendo-a com novos termos, eles descobrem que a cadeira tem muito mais atributos do que aqueles que, superficial e rapidamente, lhe atribuíam. Depois, pedi-lhes que criassem composições entre a forma da cadeira e as formas dos seus corpos e, então, eles derivaram progressivamente de situações puramente formais para a criação de novas relações de uso e de personificações do objeto.

Por fim, pedi-lhes que recuperassem o objeto-personagem da aula anterior e o fizessem habitar a cadeira. Então, algo de maravilhoso aconteceu: aqueles alunos de 18/20 anos começaram a brincar com a mesma objetividade com que as crianças brincam. O mágico “se” impôs-se sem pedir licença. Rapidamente a cadeira se tornou num planeta, um rochedo, uma estrada. Rapidamente a personagem encontrava um propósito e um conflito nas pequenas narrativas que eles criaram. Não surgiram aquelas perguntas difíceis que os jovens de 18/20 anos fazem: “Mas professora, como é que eu faço isso?” e a que eu costumo responder (com todas as dúvidas que tenho) “Inventa”. Eles inventavam porque era o que fazia sentido. O caminho estava traçado, era simples e exigia apenas uma condição: dar atenção. Afinal, não era preciso ser um génio para inventar. Ninguém disse (como, infelizmente, é costume) “sabe professora, é porque eu sou tímida” nem “sabe, professora, é porque eu não tenho muita imaginação”.

A imaginação – essa “magia que sai do cérebro”, nas palavras de uma criança que ouvi há uns anos –, afinal, é só uma peça natural que a máquina humana utiliza para produzir coisas novas. Afinal, a imaginação não é uma ideia genial que cai na cabeça de apenas alguns génios. Nada disso. A imaginação será, claramente, o fumo de um cozinhado (com ingredientes colhidos do real) feito nessa casa que somos nós e que sai, ondulante, por uma chaminé que todos temos e se chama cérebro. Aquela criança de que não lembro o nome tinha razão. Sabia ela o que sabia Kahn, o que sabia Alberto Carneiro, o que sabiam e sabem tantos daqueles que se permitem a estabelecer relações íntimas e pessoais com a realidade. Todos aqueles que não se ausentam, nem de si próprios nem do mundo. Não apenas os artistas, claro. Todos nós.


*ver KAHN, Louis – Premissa. Em “Louis Kahn: idea y imagem.” Christian Norberg-Schulz, Madrid, Xarait, 1990, p.77.


6/junho/2022

Isabel Fernandes Pinto



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