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O Vazio Criativo (folha de sala)

  • Foto do escritor: FAUNAS teatro portátil
    FAUNAS teatro portátil
  • 9 de abr.
  • 3 min de leitura

“Mas como permanecer fiel ao futuro enquanto promessa quando este não cessa de fugir e se afastar? É preciso partir do florescimento da vida, dessas vidas consideradas minúsculas, as que são ameaçadas pelas forças da vulnerabilização. É preciso valorizar as múltiplas pequenas bifurcações que estão em todo o lado. Elas correspondem a outras tantas respostas, por vezes muito frágeis, às alterações climáticas, à perda da biodiversidade, ao agravamento das desigualdades e às tensões políticas que continuam a fazer da guerra o sacramento da nossa época. É nestas pequenas bifurcações e nestes micromundos que encontramos as práticas mais significativas de desvulnerabilização. Elas mostram que o futuro não está determinado à partida.”

Mbembe, Achille - A comunidade terrestre. (2024) Trad. José Mário Silva, Lisboa: Antígona, pp. 12-13.


Este texto pontua a colaboração de um ano que tive com o Agrupamento de Escolas Sophia de Mello Breyner enquanto artista residente. Escrevo-o para a folha de sala que acompanhará a apresentação que faremos no próximo dia 24/março, com a presença de alguns alunos e professores que participaram nas oficinas realizadas ao longo dos últimos meses. A todos eles - e também aos encarregados de educação, à direção do agrupamento, à coordenação intermunicipal do PNA, à realizadora Sara Lemos e a todas as pessoas que estiverem presentes - deixo a minha profunda gratidão. Gratidão essa que, de resto, tenho a felicidade de partilhar com a professora Pilar Carvalho, coordenadora do Plano Cultural de Escola e incansável parceira na - nem sempre fácil - mediação entre propostas culturais que saltam muros e as estruturas mais estanques e cronológicas de um sistema de ensino que, como todas as instituições humanas, tem uma tendência para se cristalizar, como se fosse possível parar o infatigável labor da metamorfose natural. 

A apresentação que faremos (esta que o texto acompanha) não será um espetáculo. Será antes uma oficina aberta, a evocação de alguns dos exercícios mais significativos realizados com os alunos, agora num palco e com plateia a assistir. O teatro não está refém de modelos impostos, não são necessários figurinos brilhantes nem maquilhagens complicadas. O teatro implica uma outra presença: a abertura do que somos ao outro. O dar e receber que nos é espontâneo torna-se consciente e visível no teatro. O que somos? Como nos relacionamos? O que podemos criar? Na verdade, esse espaço de potência, esse lugar onde moram todos os futuros, é, para mim, a essência irresistível que me atrai ao teatro. Como disse Peter Brook, n’”O Espaço Vazio”, podemos sempre recomeçar. A ideia de que não há condenação e que ainda vamos a tempo das utopias liga o teatro diretamente às infâncias, com a cola que elas próprias produzem: o brincar. Brincar é coisa tão séria, que, se não o fazemos como devemos, acabaremos doentes no espírito e na relação com os outros. O direito a brincar devia estar consagrado logo a seguir ao direito à vida, porque é o exercício desse direito que faz de nós sujeitos que vivem, pensam e tentam compreender as suas próprias vidas. O brincar não é passatempo, o brincar - fazer teatro, ver-se a si próprio em ação (como disse Boal) - corresponde a experimentar as possibilidades criativas que a vida nos oferece. 

Mas o que é que isto tem a ver com alterações climáticas, perda da biodiversidade, agravamento das desigualdades ou tensões políticas? Tudo. Estamos no território da educação, esse lugar onde é proibido dizer que “não vale a pena”. O individualismo que grassa à volta, enraizado numa sociedade insidiosamente violenta e competitiva, não tem por que ser o nosso modelo de vida. É preciso que vejamos isso. “Vendo-nos vendo”, como disse Boal, tornamo-nos mais capazes de inventar outras formas de ver a vida e de construir a realidade. Porque, como Achille Mbembe tão bem nos diz: “o futuro não está determinado à partida”.


março/2026,

Isabel Fernandes Pinto

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