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"Então, já sabe a resposta?"

  • Foto do escritor: FAUNAS teatro portátil
    FAUNAS teatro portátil
  • 23 de fev.
  • 6 min de leitura

Uma menina do 5º ano fez-me esta pergunta no primeiro dia da Oficina "O Vazio Criativo", na EB Sophia de Mello Breyner:

- Porque é que choramos?

A pergunta é linda, mas a curiosidade séria dela era ainda mais linda. E as sua persistência. A cada sessão, vinha ter comigo: "Então, já sabe a resposta?" E eu, que entretanto me tinha esquecido (andamos tantas vezes arredados das coisas essenciais...), dava respostas incompletas, insatisfatórias... Antes do Natal ela veio à porta da oficina e perguntou-me outra vez. Eu não tinha procurado a resposta, mas falamos do mecanismo fisiológico e de respostas hormonais ao stress... Combinamos que íamos as duas procurar respostas.

Redigi-lhe agora esta carta, que partilho aqui.

*

Oficina "O Vazio Criativo" na EB de Sophia de Mello Breyner, Gaia, janeiro/2026 - exercício de escrita criativa.
Oficina "O Vazio Criativo" na EB de Sophia de Mello Breyner, Gaia, janeiro/2026 - exercício de escrita criativa.

*

Querida Menina,


Ainda não tenho uma resposta completa, correta nem justificada para a tua pergunta. 

Porque é que choramos?

Não sei exatamente porquê. É natural que a inteligência artificial te responda a essa questão com mais informações do que eu - muito mais! As máquinas têm esse poder de armazenar quantidades exorbitantes de informação para a servir aos consumidores como se fossem frangos de churrasco. Não sei se gostas de frango de churrasco - eu até gosto, mas não todos os dias. O frango assado na brasa de alguns restaurantes é bom e dá para fazer umas refeições esporádicas. Normalmente, essas casas têm pessoas muito experientes a trabalhar, que até dizem de si próprias: “Já são muitos anos a virar frangos!”

Eu não sei, Menina, porque é que choramos. Mas adoro a tua pergunta e adoro que a tenhas feito. Vamos por partes. 

Porque é que adoro a pergunta sobre porque é que choramos? Porque adoro contemplar o que não sei. Sabes, penso que nós não podemos saber tudo. Não porque sejamos estúpidos - longe disso - mas porque vivemos dentro de realidades e é muito difícil observar de fora, ter uma compreensão completa da coisa quando se está dentro dela. Podemos imaginar como será por fora, podemos criar instrumentos para retratar aquilo que nos submerge, mas daí virão sempre impressões parciais da coisa, não a explicação completa e final da coisa em si. 

Quando tu aprendes, estudas, trabalhas e fazes testes aqui na escola, tenho a certeza que tu - tal como os teus colegas - procuras respostas certas. Elas existem e são certas. Só não são todas as respostas que o mundo e a vida te hão de pedir. Tu sabes disto, mesmo sem o dizeres, e é por isso que me vieste perguntar: Porque é que choramos?

Adoro que me tenhas feito essa pergunta, porque sempre que perguntamos, ficamos menos sós. O mesmo acontece quando alguém nos pergunta. Em verdade, nós nunca estamos sós, mesmo que seja natural sentirmo-nos sós de vez em quando. Mas nós nunca estamos sós. Há sempre alguém que nos recorda, que sonha connosco, que repara em algo que dissemos ou fizemos. Mesmo antes de existirmos não estávamos sós, já éramos sonhados pelos nossos pais.

Gosto muito que me façam perguntas. Fico sempre espantada por acharem que vou ter uma resposta. Às vezes não tenho respostas, mas faço de conta que tenho. Esse fingimento é de grande utilidade, não porque nos “sirva” para “obter” alguma coisa, mas porque pode servir como tábua para iniciar uma ponte. Uma resposta tentada é uma ponte de uma pessoa para a outra. Pode ser também um abraço. Às vezes, é um colo. Ou pode ser um aceno, entre duas pessoas que estão em viagem, partindo em comboios diferentes. Quando faço de conta que tenho uma resposta, não minto, nunca minto. Pelo contrário: vou verdadeiramente à procura de uma resposta. Ela surge, surge sempre (como esta), porque nós temos esta capacidade maravilhosa de inventar respostas - ao contrário da inteligência artificial, que só as repete.

Agora deixa-me falar-te do verbo “adorar”, que utilizei para falar do que sinto sobre as perguntas. Os povos antigos adoravam forças da natureza, animais sagrados e deuses. Ainda hoje se adoram deuses, por todo o mundo, e, sob o pretexto dessa adoração - essa sim, uma grande mentira - se cometem atrocidades e violências. Também há quem adore um deus com honestidade e procure nele referências de justiça e bondade para fazer a sua vida num mundo que pode ser muito cruel. Para mim, adorar é observar o contorno das coisas conhecidas. Encanta-me ver o desenho das coisas, observar as suas belezas - todas as coisas da vida são belas, todas! - e saber que, para lá desse risco, há toda uma escuridão: o que não podemos ver. Encanta-me saber que não posso ver tudo, olhando para aquilo que vejo. A esse encantamento, chamo adorar. Talvez não seja exatamente o significado da palavra, mas é isto que ela é para mim. 

E agora, deixa-me dizer-te outra coisa: Eu não sei porque é que choramos, mas eu choro muitas vezes. O choro faz parte da minha vida, tal como o riso e a serenidade. Porque é que choro? Porque as emoções que sinto desencadeiam reações fisiológicas que produzem o choro nos meus olhos. Mas porquê o choro? Porquê exatamente a água salgada a romper nos olhos? Não sei. Tal como não sei porque é que o meu coração bate nem porque tenho vontade de ir à casa de banho. Sei que é assim - observo esses fenómenos - e, com a ajuda de alguns manuais, ou mesmo da inteligência artificial - posso explicar como é. Mas não sei porquê. 

No entanto, posso responder a outra pergunta: Para que é que choro? 

Quando somos bebés, o choro serve-nos para pedirmos ajuda. Como te disse acima, nós nunca estamos sós. Isso é verdade, estamos sempre presentes nos outros e os outros estão sempre presentes em nós. Mas, quando somos corpos acabados de nascer, muito dependentes, precisamos constantemente de ajuda - para saciarmos a fome e a sede, para nos protegermos de perigos, para aprendermos competências básicas como andar e falar - e, para chamarmos os outros, choramos. Talvez o façamos também depois de crescermos - chorar para chamar outra pessoa - e isso costuma ser muito mal entendido, porque os adultos criaram sistemas de vida complicados que muitas vezes desviam a sua atenção dessa coisa tão importante que é cuidar do outro. Não há nada de reprovável em chamar a atenção de alguém, pelo contrário. Chamar - “Olha para mim, estou aqui, preciso de ti!” - é algo tão essencial que nascemos a saber como o fazer através do choro. Porquê? Não sei. Mas sei que podemos e devemos chamar os outros, se precisarmos deles.

Por outro lado, choramos para aliviar as emoções negativas, causadas por situações que ameaçam a nossa sobrevivência ou bem-estar. Como falamos noutro dia, emoções negativas como o medo, a raiva, a ansiedade e a tristeza desencadeiam reações fisiológicas (os músculos do nosso corpo ficam tensos, por exemplo) e hormonais (temos umas “coisinhas” no nosso corpo chamadas glândulas que produzem substâncias químicas que vão desencadear novas reações fisiológicas, como o choro). Essas emoções negativas não são “más”, pelo contrário: são emoções muito saudáveis, sem as quais, aliás, não poderíamos sobreviver. 

(Isto é um parêntesis, mas é importante: Nunca tenhas medo de sentir medo, raiva nem tristeza. Elas protegem-te nas situações em que sentes a tua vida ameaçada. Elas são muito importantes para ti e para aqueles que te querem bem. Se não as puderes partilhar com outra pessoa, sente-as, observa-as e vê como elas se transformam dentro de ti. Podes tentar compreender o que as provoca, mas nem sempre conseguimos compreender bem a situação no momento em que a estamos a viver, por isso não desesperes se não compreenderes tudo e nunca te convenças de que sabes exatamente todo o porquê de as sentires. Tenta observá-las e dar-lhes um caminho para se transformarem dentro de ti. Não deixes que elas te dominem. Tudo na vida é transformação. Não somos capazes de sentir alegria profunda, se a tristeza não for nossa conhecida.)

Os cientistas observaram hormonas de stress nas lágrimas emocionais (diferentes das lágrimas basais, que servem para humedecer e proteger os olhos), por isso, sim, chorar também serve para “deitar fora” a tristeza, o medo, a raiva e a ansiedade. É também um mecanismo de limpeza. Daí o alívio que sentimos depois de chorar.

Menina, tenho pouco mais a dizer-te sobre isto. A tua pergunta levou-me por uma viagem muito bonita entre os pensamentos. Tocaste-me com o teu olhar curioso e a persistência com que me colocaste a questão, vindo ter comigo várias vezes à porta da sala das oficinas de expressão dramática. Não percas essas qualidades: curiosidade e persistência. E nunca tenhas medo de perguntar. Talvez a liberdade comece aí: nas perguntas que fazemos.


Um abraço muito grande e obrigada,

Isabel Fernandes Pinto

*

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06 de mar.

Obrigada Isabel por partilhar esta reflexão, que irei "adorar" partilhar com a minha neta Carolina, sempre tão perguntadora e atenta aos sinais da vida. um grande abraço, com muita amizade e saudades


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