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O Vazio Criativo: Exposição-Instalação (folha de sala)

  • Foto do escritor: FAUNAS teatro portátil
    FAUNAS teatro portátil
  • 21 de jan.
  • 2 min de leitura

Se esta exposição fosse uma instalação artística, seria assim:

uma sala de aula com mesas e cadeiras arredadas e a porta aberta.

Haveria também cartazes com palavras em torno da ideia de Teatro afixadas nos placards; panos junto à soleira da porta para os alunos limparem as sapatilhas (antes de pisarem o chão onde nos vamos sentar, deitar, jogar, conversar e aprender) e algumas mochilas pousadas sobre as mesas invertidas.

São 13h04m, hora do intervalo.

  • Podemos entrar para pousar as mochilas?

  • Podem, sim.

Entraram, limparam os pés nos panos, pousaram as mochilas e saíram para o recreio.

Se esta exposição fosse uma instalação artística, ela seria isto: uma sala de aula que procura libertar-se de constrangimentos: mobília arredada, porta aberta e pequenos detalhes de pensamento e cuidado coletivo.

Mas não seria honesto ocultar que a aula que se prepara não é exatamente uma “aula”. Trata-se de uma oficina de expressão dramática, momento esporádico, sem horário anual nem avaliação quantitativa. Por isso, esta realidade feliz em que me inscrevo agora, aguardando a chegada das 13h15m, concretiza aquilo que permanece como uma utopia para grande parte de uma Escola tomada pelo dever de apresentar resultados mensuráveis. 

Nesta sala, hoje, entram a disciplina e o recreio, o tempo cronológico e o vagar.

Os folhetos de cordel aqui expostos não estão acabados porque não constituem uma finalidade em si próprios. Eles são vestígios do processo de aprendizagem, jogo e criação que configurou as três sessões da oficina de expressão dramática para as turmas de 2º ciclo. 

As palavras escritas sobre o papel reciclado estilhaçam a ideia de Teatro em múltiplos conceitos. É a expressão direta dos pensamentos que os alunos de 3º ciclo associaram ao teatro, no final da 1ª sessão da sua oficina. 

Estes objetos não estão todos ao mesmo nível de finalização, o que nos permite (a nós, adultos) ver com clareza a pluralidade tão rica de infâncias aqui expressas. O convite aqui deixado é o de uma observação aberta ao erro, à descoberta e à inquietação. Haverá com certeza a tentação de hierarquizar trabalhos pelo seu valor e acabamento estético. Mas talvez possamos mudar a perspetiva, se pensarmos que não existem “os melhores”, apenas existem “os mais fáceis de ler”. É que os mais opacos ou inacabados inquietam-nos por uma ideia maior (e urgente): o vagar, a lentidão, o valor do processo e do conhecimento sobre quem se é e onde se está. 

“Fiz até aqui” - e está tudo bem. 

Não faria qualquer sentido apressar os resultados, saltar etapas nem focarmo-nos no acabamento dos objetos. Tudo isso seriam fugas ao processo, ao encontro e à aprendizagem que se faz na oficina de expressão dramática. Contudo, expomos estes objetos. Expomo-los não exatamente para fruição estética, mas como instalação que nos instiga a ver a diversidade de pessoas, tempos, imaginações e pensamentos que uma sala abarca. Não finalizados, estes objetos cumpriram a sua função.

Uma aluna escreveu, num exercício destas oficina, a seguinte frase: “Amanhã também é dia”. Há sempre brilho na palavra e no desenho que se fazem num espaço vazio, com vagar. Aqui, importam menos os padrões do que a presença, o encontro e a partilha. 

Amanhã também é dia.

*


Agrupamento de Escolas de Sophia de Mello Breyner, 

Gaia, janeiro/2026,


Isabel Fernandes Pinto

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