• FAUNAS teatro portátil

Ensaio I

Atualizado: 24 de jan.

Descascar, desbastar, limar, lixar, pintar e polir. Enquanto o texto e as imagens bailam na cabeça. Estou a trabalhar na peça de teatro sobre o escultor Alberto Carneiro.

Talvez seja estranho que a atriz que irá interpretar a peça faça estes trabalhos. Estamos habituados ao trabalho coletivo, à delegação de funções, à separação das especialidades. E bem. Nem sempre o faço, tenho competências rudimentares na área das artes plásticas. Mas para esta peça faz todo o sentido calçar as luvas de borracha, comprar o material e moldar os troncos com as minhas mãos. Uma espécie de ensaio, de aproximação ténue, de aceno a essa memória inventada que terão sido os gestos de Alberto Carneiro. Só que, claro, não pego numa motosserra. Como ele.

As mãos doem-me ainda no dia seguinte. A memória que fica no corpo é completa. O conhecimento que adquiro daqueles troncos também. Sei de onde eles vieram, desde o madeireiro que mos vendeu. Sei como se transformaram. Sei da violência que senti e quase me envergonhou quando lhes descasquei as cascas verdes. Sei de me sentir humilde com eles, como se adquiri-los, transformá-los e reinventá-los fosse pecado. Não é. Eles estão ali, encostados à parede, aceitando. Conheço o peso de cada um, as suas texturas e a dinâmica dos seus centros de gravidade. Estou pronta, desejosa de brincar com eles, de os preparar para uma festa que se chama teatro onde cada coisa toma as variadas formas que os olhos conseguirem enxergar.


Isabel Fernandes Pinto, 16-6-2021




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