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Pequena nota sobre “Trajeto de um corpo”, de Alberto Carneiro

Atualizado: 24 de jan.


Pequena nota sobre “Trajeto de um corpo”, de Alberto Carneiro

Tal como diz o Feiticeiro de Oz ao Espantalho, ao Homem de Lata e ao Leão, que tudo aquilo que eles procuravam já estava dentro deles e afinal o que eles precisavam era de um atestado – um objeto que autenticasse perante os outros aquilo que eles procuravam sem saber que já o tinham dentro – também o trabalho do artista está nele próprio e se manifesta por toda a sua vida, em cada vivência, cada sensação, cada pensamento, cada raciocínio. Alberto Carneiro coloca uma pedra furada na sala de exposições, mas esta não é o seu trabalho. Coloca fotografias para atestar a experiência de percurso que teve com aquele objeto, mas as fotografias não são o seu trabalho. O seu trabalho foi o percurso, foram as vivências que ele teve, com aquela pedra que ele furou, talhou e poliu, na praia, na ribeira e na montanha. Mas, como era impossível levar a praia, a ribeira e a montanha para dentro da sala de exposição (anos antes tinha levado os fardos de palha, esses cabiam), ele levou fotografias (aproximação visual às memórias) e a pedra. Então, ali, aos olhos do público, a pedra “autenticou-se” (nas suas palavras) como objeto artístico. Da mesma maneira que o diploma, o relógio em forma de coração e a medalha autenticaram os desejos das três personagens de Oz.

No fim, a obra do artista será talvez um conjunto de objetos que pontuam um percurso, objetos esses que não prescindem do olhar do público para serem declarados “obra de arte”. Porém, o percurso – o seu trabalho – tem um outro lugar. O trabalho do artista é a sua própria vida, a sua experiência. Nessa existência quase condicional, todas as suas dúvidas são justificadas – tal como o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão duvidavam do valor do que possuíam, assim também o artista duvida – porque o estatuto artístico do seu trabalho não é legitimado senão pelos outros – o público – através dos objetos que ele vai libertando de si, como excrescências que partem para o mundo, geradas por um corpo nómada, sensitivo e pensante.

Isabel Fernandes Pinto, 7/outubro/2021

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