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Um ser morto entre seres vivos


Um ser morto entre seres vivos


“História de um muro” é uma peça para 1 ator, guitarra e tijolos. O que o ator (ou, neste caso, a atriz) faz com os tijolos é a síntese de algo muito simples que nós, realmente, queremos dizer: Assim como o muro é construído, também pode ser desconstruído. Mais desconstruído do que destruído, porque os tijolos – ou, historicamente, as pedras… Lembram-se das muralhas medievais das cidades europeias? – aproveitam-se sempre. E a nós interessa-nos aproveitar. Porque “aproveitar” é o que faz a vida, essa vida devoradora que tudo transforma. A história faz-se pelo erro, a correção, a busca, numa instável demanda de equilíbrios. Plurais. Sempre plurais. Balanças que são relativas – vejam como pesamos menos se subirmos a uma montanha – e conflituam entre si, assentes em plataformas móveis. Nada para, neste mundo.

Num território onde todos os seres vivos dialogam – mesmo que se desentendam mais do que se compreendam mutuamente – impõe-se um ser morto que nada faz. O muro é uma coisa fixa, que não quer mudar porque não tem querer. Ora, uma coisa que não tem querer está muito mais vulnerável à destruição. Uma coisa que foi feita por outrem, não por si própria. Uma coisa morta, inerte, sem ânimo, desfazendo-se desde o primeiro instante em que alguém a fez.

Também nós nos vamos desfazendo, mas a luta para permanecermos está viva, dentro dos nossos corpos perecíveis. E, de repente, o muro não é apenas uma divisão; o muro é a imagem clara e evidente da coisa sem vida, da coisa que não tem responsabilidade sobre si e, no entanto, está ali.

É claro que um muro é habitado. Colonizado por plantas, fungos, insetos, vermes, bactérias e outras formas de vida. É claro que o muro pode ser um território. Mas a nós interessa-nos olhar para outro território: o território que ele destruiu. Porque nós, gente, somos capazes de desconstruir o muro; mas as coisas sem vontade própria não sabem o que fazem, não são sequer responsáveis pela destruição que elas próprias causam.


*Fotos de ensaio exploratório para a encenação da peça “História de um Muro”.


Isabel Fernandes Pinto, 11-11-2021



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